{"id":267,"date":"2020-12-14T11:20:21","date_gmt":"2020-12-14T14:20:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/?p=267"},"modified":"2020-12-15T17:41:46","modified_gmt":"2020-12-15T20:41:46","slug":"balanco-da-greve-de-osasco-de-1968-o-fim-do-sonho-de-organizar-os-trabalhadores-pela-via-sindical-e-democratica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/index.php\/2020\/12\/14\/balanco-da-greve-de-osasco-de-1968-o-fim-do-sonho-de-organizar-os-trabalhadores-pela-via-sindical-e-democratica\/","title":{"rendered":"Balan\u00e7o da Greve de Osasco de 1968: o fim do sonho de organizar os trabalhadores pela via sindical e democr\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p>Em outubro de 1968, ap\u00f3s sair da pris\u00e3o de 98 dias, Zequinha Barreto e Jos\u00e9 Ibrahim escreveram um texto sobre o balan\u00e7o da greve de julho em Osasco. No final, a reflex\u00e3o \u00e9 encerrada com os seguintes dizeres:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-268\" src=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Greve_Osasco_17julho1968.jpg\" alt=\"\" width=\"784\" height=\"589\" srcset=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Greve_Osasco_17julho1968.jpg 784w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Greve_Osasco_17julho1968-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Greve_Osasco_17julho1968-768x577.jpg 768w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Greve_Osasco_17julho1968-750x563.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 784px) 100vw, 784px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>\u201cEsta \u00e9 a experi\u00eancia dos trabalhadores de Osasco. O objetivo deste documento \u00e9 fornecer dados de an\u00e1lise a toda a vanguarda revolucion\u00e1ria brasileira, na luta pela transforma\u00e7\u00e3o social, pelo socialismo\u201d.<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>AN\u00c1LISE DO DOCUMENTO<\/strong><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em breves t\u00f3picos, analisamos os principais pontos do documento, que permanecem ATUAIS, mais de 50 anos ap\u00f3s sua elabora\u00e7\u00e3o. Acompanhe:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>VIOL\u00caNCIA JUSTA:<\/strong> A viol\u00eancia justa dos explorados, contra a viol\u00eancia injusta dos exploradores, em dire\u00e7\u00e3o a uma sociedade sem classes.<\/p>\n<p><strong>ARROCHO:<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um termo para &#8216;carimbar&#8217; situa\u00e7\u00f5es de crise. Sen\u00e3o, em pleno governo Lula poder\u00edamos dizer que n\u00e3o existe arrocho contra os trabalhadores (ao contr\u00e1rio, uma aparente prosperidade).<br \/>\nNo documento, Zequinha e Ibrahim ampliam o conceito de &#8216;Arrocho&#8217;, que significa:<\/p>\n<ul>\n<li>Congelamento dos sal\u00e1rios com a desculpa de &#8216;controle da infla\u00e7\u00e3o&#8217;. \u201cO congelamento dos sal\u00e1rios \u00e9 uma forma de aumentar a taxa de lucro dos patr\u00f5es sem acarretar grande aumento nos pre\u00e7os dos produtos&#8221;, diz Zequinh<\/li>\n<li>&#8220;Jogar nas costas do povo o \u00f4nus da crise do capitalismo&#8221;. Parece at\u00e9 que Zequinha previu a crise mundial, particularmente a \u00faltima, da Gr\u00e9cia (o governo grego demitiu funcion\u00e1rios p\u00fablicos, rebaixou ou congelou sal\u00e1rios, cortou benef\u00edcios sociais, a mando do FMI, para obter empr\u00e9stimos). Os banqueiros e industriais n\u00e3o foram &#8216;chamados&#8217; ao sacrif\u00edcio, muito ao contr\u00e1rio, est\u00e3o drenando recursos p\u00fablicos e da Europa para sua &#8216;recupera\u00e7\u00e3o financeira&#8217;<\/li>\n<li>&#8220;Enquadramento do pa\u00eds dentro do esquema do capital internacional e submiss\u00e3o de nossa economia dentro do esp\u00edrito de que \u2018o que \u00e9 bom para os Estados Unidos \u00e9 bom para o Brasil'&#8221;. Isso foi escrito h\u00e1 42 anos! Algu\u00e9m a\u00ed duvida que isto tenha mudado? Ou s\u00f3 mudou o discurso?<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>MERCADO INTERNO X MERCADO EXTERNO:<\/strong><\/p>\n<p>Zequinha falou da &#8220;Fal\u00eancia das pequenas ind\u00fastrias, que v\u00e3o sendo engolidas pelos grandes trustes internacionais&#8221;. O &#8216;derrame&#8217; de produtos das empresas multinacionais causou estragos nas nossas empresas metal\u00fargicas (pequenas e m\u00e9dias), quase destruiu nosso setor cal\u00e7adista e de confec\u00e7\u00f5es, reduziu dramaticamente o n\u00edvel do emprego produtivo, com efeitos em nossa economia at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>CONTRADI\u00c7\u00d5ES DO CAPITALISMO:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Para Zequinha, &#8220;as contradi\u00e7\u00f5es existentes na sociedade capitalista s\u00f3 podem ser resolvidas pelo proletariado&#8230; com um programa socialista e revolucion\u00e1rio, sendo, pois necess\u00e1rio educ\u00e1-lo, organiz\u00e1-lo e conduzi-lo para essas tarefas. A burguesia reformista quer resolver sua contradi\u00e7\u00e3o com o imperialismo sem mudar a estrutura social&#8221;, alerta.<\/li>\n<li>&#8220;A contradi\u00e7\u00e3o fundamental reside entre o capital e o trabalho, sobre as for\u00e7as que produzem a riqueza (os oper\u00e1rios) e aqueles que det\u00eam os meios de produ\u00e7\u00e3o (os patr\u00f5es), entre o car\u00e1ter social da produ\u00e7\u00e3o e a apropria\u00e7\u00e3o individual dos produtos do trabalho&#8221;. Um racioc\u00ednio que vale hoje, palavra por palavra.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>VANGUARDA REVOLUCION\u00c1RIA:<\/strong><\/p>\n<p>O conceito de &#8216;vanguarda revolucion\u00e1ria&#8217; e de &#8216;educar&#8217;, &#8216;dar dire\u00e7\u00e3o&#8217; aos trabalhadores, amplamente usado no documento por Zequinha e Ibrahim \u00e9 um conceito que carece de revis\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 uma t\u00e1tica ortodoxa, do per\u00edodo em que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a chamada \u2018Guerra Fria\u2019 estavam de p\u00e9. Mas a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e mesmo de quadros entre os trabalhadores \u00e9 perfeitamente v\u00e1lida, mas numa esp\u00e9cie de &#8216;efeito multiplicador&#8217;, pois TODOS t\u00eam direito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ao acesso \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a dentro do movimento social e revolucion\u00e1rio, e n\u00e3o apenas algumas lideran\u00e7as de vanguarda \u2018iluminadas\u2019.<\/p>\n<p><strong>PELEGOS SINDICAIS:<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;As oposi\u00e7\u00f5es sindicais lan\u00e7am as palavras de ordem de organiza\u00e7\u00e3o pela base&#8230; e empreendem vigorosa campanha contra os pelegos sindicais&#8221;. Hoje praticamente as maiores Centrais sindicais (CUT e For\u00e7a Sindical) n\u00e3o defendem mais as lutas fundamentais dos trabalhadores, que se sentem cada vez menos representados por estas &#8216;for\u00e7as&#8217;, que sempre preferem negociar por cima, nunca abrindo m\u00e3o de suas estruturas internas de poder e corrup\u00e7\u00e3o. &#8220;Os pelegos para sobreviverem se ap\u00f3iam na desorganiza\u00e7\u00e3o da classe&#8221;, alerta o documento, mais adiante.<\/p>\n<p><strong>GREVE:<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;O oper\u00e1rio que s\u00f3 tem a sua for\u00e7a de trabalho para vender, procura vend\u00ea-la pelo pre\u00e7o mais alto. Um oper\u00e1rio isoladamente n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de fazer frente \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o patronal e a \u00fanica forma de evitar que seu sal\u00e1rio seja rebaixado ou conseguir que estes sejam aumentados, \u00e9 unir-se com outros oper\u00e1rios que s\u00e3o v\u00edtimas da mesma explora\u00e7\u00e3o. A forma de se encaminhar esta luta \u00e9 paralisando o trabalho para conseguir as reivindica\u00e7\u00f5es. As greves surgem da pr\u00f3pria sociedade capitalista, \u00e9 uma forma bem simples em que se expressa a luta de classes\u201d.<\/p>\n<p><strong>OCUPA\u00c7\u00d5ES:<\/strong><\/p>\n<p>O documento critica as greves em que os &#8216;pelegos&#8217; decretam a paralisa\u00e7\u00e3o e mandam o oper\u00e1rio para casa, causando desmobiliza\u00e7\u00e3o. Zequinha e Ibrahim defendiam a ocupa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas pelos oper\u00e1rios. Hoje, um dos maiores expoentes da t\u00e1tica de ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 o Movimento dos trabalhadores rurais Sem Terra (MST), e em certa medida, o MTST (Sem-Teto Urbanos). A ocupa\u00e7\u00e3o das fazendas e dos terrenos ociosos levanta a quest\u00e3o da propriedade privada da terra, sendo um poderoso instrumento de luta, mobiliza\u00e7\u00e3o e coes\u00e3o dos trabalhadores no enfrentamento contra o Capital (neste caso, representado pelo latif\u00fandio e pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria).<\/p>\n<p><strong>A LUTA ELEVA O N\u00cdVEL DE CONSCI\u00caNCIA DE CLASSE:<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_269\" aria-describedby=\"caption-attachment-269\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-269 size-jnews-750x536\" src=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Manchete_Folha_Zequinha_Greve_Osasco_19julho1968-750x536.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"536\" srcset=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Manchete_Folha_Zequinha_Greve_Osasco_19julho1968-750x536.jpg 750w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Manchete_Folha_Zequinha_Greve_Osasco_19julho1968-120x86.jpg 120w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Manchete_Folha_Zequinha_Greve_Osasco_19julho1968-350x250.jpg 350w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Manchete_Folha_Zequinha_Greve_Osasco_19julho1968-1140x815.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-269\" class=\"wp-caption-text\">Manchete do jornal Folha de S\u00e3o Paulo &#8211; Greve de Osasco |1968<\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Na luta a classe eleva o seu n\u00edvel de consci\u00eancia devido \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de assembleias, discuss\u00e3o pol\u00edtica, possibilitando maior aceita\u00e7\u00e3o das palavras de ordem das lideran\u00e7as, e o surgimento de novas lideran\u00e7as, o que facilita a organiza\u00e7\u00e3o dos mais amplos setores da massa&#8230;. para discuss\u00e3o pol\u00edtica e realiza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas&#8221;. Teoria e pr\u00e1tica revolucion\u00e1rias!<\/p>\n<p><strong>RESISTIR \u00c9 PRECISO:<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Os homens que n\u00e3o se sujeitam e resistem a tais calamidades para quebrar a resist\u00eancia de meia d\u00fazia de burgueses, saber\u00e3o sem d\u00favida tamb\u00e9m quebrar a for\u00e7a de toda a burguesia&#8221;, diz o documento, citando uma frase de autor desconhecido, mas amplamente v\u00e1lida.<\/p>\n<p><strong>AUTO-CR\u00cdTICA:<\/strong><\/p>\n<p>Os movimentos sociais e dos trabalhadores necessitam de uma constante auto-cr\u00edtica, para corre\u00e7\u00e3o de rumos e exerc\u00edcio da humildade e disciplina revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>O documento conclui que n\u00e3o podemos perder o foco, &#8220;na luta pela transforma\u00e7\u00e3o social, pelo socialismo&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>(An\u00e1lise de M\u00e1rcio Am\u00eandola de Oliveira &#8211; Instituto Zequinha Barreto)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como se trata do \u00fanico material escrito pelas m\u00e3os do pr\u00f3prio Zequinha e de um companheiro, demonstrando em suas entrelinhas sua pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de mundo, revolucion\u00e1ria e socialista, transcrevemos agora a \u00edntegra do documento de balan\u00e7o da grande greve de Osasco:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>\u201cMANIFESTO DE BALAN\u00c7O DA GREVE DE JULHO\u201d (de 1968)<\/strong><\/h3>\n<figure id=\"attachment_270\" aria-describedby=\"caption-attachment-270\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-jnews-750x536 wp-image-270\" src=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Estudantes_Apoiam_Greve_Osasco_1968-750x536.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"536\" srcset=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Estudantes_Apoiam_Greve_Osasco_1968-750x536.jpg 750w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Estudantes_Apoiam_Greve_Osasco_1968-120x86.jpg 120w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Estudantes_Apoiam_Greve_Osasco_1968-350x250.jpg 350w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/07_Estudantes_Apoiam_Greve_Osasco_1968-1140x815.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-270\" class=\"wp-caption-text\">Estudantes de Osasco prestam apoio aos trabalhadores na greve de Julho (1968)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cCompanheiros,<\/p>\n<p>Conscientes de que vivemos sob uma ditadura de classes que precisamos destruir.<\/p>\n<p>Conscientes de que ao longo de nossas lutas temos cometido erros e precisamos encontrar uma forma de organiza\u00e7\u00e3o eficaz.<\/p>\n<p>Conscientes de que s\u00f3 com a viol\u00eancia justa dos explorados, contra a viol\u00eancia injusta de que somos v\u00edtimas, e que iremos destruir a ditadura dos patr\u00f5es e implantar uma sociedade sem classes.<\/p>\n<p>Sabendo que para atingir o n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o que precisamos, temos a cada momento analisar criticamente nossos trabalhos.<\/p>\n<p>Reconhecendo para isso a import\u00e2ncia da troca de experi\u00eancias e, nesse sentido relatamos aos companheiros alguns pontos de vista sobre o movimento oper\u00e1rio e nossa experi\u00eancia recente.<\/p>\n<p>Reconhecendo ainda a superficialidade deste documento, que s\u00f3 visa incentivar a discuss\u00e3o, informamos que estamos preparando um balan\u00e7o sobre nossas experi\u00eancias nos comit\u00eas de empresas, no sindicato, sobre organiza\u00e7\u00e3o de greves e ocupa\u00e7\u00f5es de f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>Conclamamos todos os companheiros a discutir nossas experi\u00eancias, esperando com isso, al\u00e9m de receber cr\u00edticas, iniciar uma proveitosa troca de experi\u00eancias, para a organiza\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria que possa, aliando-a aos camponeses, conduzir o proletariado ao poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A LUTA ANTI-ARROCHO E A GREVE DE OSASCO<\/strong><\/p>\n<p>Considera\u00e7\u00f5es sobre o arrocho.<\/p>\n<p>O arrocho n\u00e3o surgiu com o golpe de 64. Antes de 64, o poder pol\u00edtico representava os interesses dos patr\u00f5es e era dominado pela minoria totalit\u00e1ria patronal. Acontece que, com o golpe, o arrocho apenas acentuou-se. Ele n\u00e3o se manifesta somente na pol\u00edtica econ\u00f4mico-financeira do governo, mas em todos os setores da vida nacional, e todas as formas de repress\u00e3o, quer o terrorismo cultural, quer o arrocho salarial, quer a Lei de Seguran\u00e7a Nacional, o acordo Mec-Usaid, a Lei Suplicy, etc, s\u00e3o formas de arrocho. Em suma, arrocho \u00e9 o termo que o povo brasileiro encontrou para caracterizar a ditadura dos patr\u00f5es.<\/p>\n<p>Vejamos alguns objetivos e caracter\u00edsticas dessa pol\u00edtica:<\/p>\n<p>a) Conten\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o, tomando-se por base que \u2018o aumento dos n\u00edveis salariais \u00e9 que inflaciona a economia do Pa\u00eds\u2019.<\/p>\n<p>b) Jogar nas costas do povo o \u00f4nus da crise do capitalismo.<\/p>\n<p>c) O congelamento dos sal\u00e1rios \u00e9 uma forma de aumentar a taxa de lucro dos patr\u00f5es sem acarretar grande aumento nos pre\u00e7os dos produtos.<\/p>\n<p>d) Enquadramento do pa\u00eds dentro do esquema do capital internacional e submiss\u00e3o de nossa economia dentro do esp\u00edrito de que \u2018o que \u00e9 bom para os Estados Unidos \u00e9 bom para o Brasil\u2019.<\/p>\n<p>Essas medidas s\u00e3o necess\u00e1rias ao capitalismo, em sua fase mais adiantada, o Imperialismo, para sustentar materialmente a repress\u00e3o necess\u00e1ria contra a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria mundial. Como exemplo disso temos a agress\u00e3o de que \u00e9 v\u00edtima o her\u00f3ico povo do Vietn\u00e3. Por outro lado as mesmas medidas intensificam as contradi\u00e7\u00f5es entre as massas exploradas e a classe dominante.<\/p>\n<p>Logicamente, essas medidas que vieram adaptar o pa\u00eds dentro da realidade internacional do capitalismo, t\u00eam as suas conseq\u00fc\u00eancias no plano interno:<\/p>\n<p>a) Diminui\u00e7\u00e3o do poder aquisitivo do povo e, conseq\u00fcentemente, a estagna\u00e7\u00e3o do mercado interno.<\/p>\n<p>b) Proletariza\u00e7\u00e3o de grande parte da pequena burguesia.<\/p>\n<p>c) Fal\u00eancias das pequenas ind\u00fastrias, que v\u00e3o sendo engolidas pelos grandes trustes internacionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O REFORMISMO E O MOVIMENTO OPER\u00c1RIO ANTES DE 64<\/strong><\/p>\n<p>Antes de 64, a chamada \u2018burguesia nacional\u2019 reformista e liberal, acenava com reformas de base e as massas dirigidas por elementos conciliadores e tamb\u00e9m reformistas iam a reboque.<\/p>\n<p>A burguesia reformista atrelou a seu carro instrumentos de lutas das massas como o PC, os sindicatos, etc., e moldou lideran\u00e7as hoje reconhecidas pela massa como pelegos, traidores e reformistas. Esses conciliadores n\u00e3o necessitavam organizar a massa para fazer suas \u2018jogadas\u2019 nas c\u00fapulas e \u2018n\u00e3o entenderam\u2019 que as contradi\u00e7\u00f5es existentes na sociedade capitalista s\u00f3 podem ser resolvidas pelo proletariado, sob a condu\u00e7\u00e3o da vanguarda, com um programa socialista e revolucion\u00e1rio, sendo, pois necess\u00e1rio educ\u00e1-lo, organiz\u00e1-lo e conduzi-lo para essas tarefas.<\/p>\n<p>A burguesia reformista queria resolver sua contradi\u00e7\u00e3o com o imperialismo sem mudar a estrutura social, e a lideran\u00e7a revisionista mais uma vez \u2018n\u00e3o compreendeu\u2019 que essa contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 secund\u00e1ria e nunca poderia chegar a uma forma de antagonismo, pois a contradi\u00e7\u00e3o fundamental reside entre o capital e o trabalho, sobre as for\u00e7as que produzem a riqueza (os oper\u00e1rios) e aqueles que det\u00eam os meios de produ\u00e7\u00e3o (os patr\u00f5es), entre o car\u00e1ter social da produ\u00e7\u00e3o e a apropria\u00e7\u00e3o individual dos produtos do trabalho, e que com o avan\u00e7o do movimento de massas os setores mais reacion\u00e1rios da burguesia procurariam cortar esse processo, antes que surgisse do seio da massa uma nova lideran\u00e7a capaz de dirigi-la para objetivos superiores aos da reforma dentro da estrutura capitalista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>MOVIMENTO OPER\u00c1RIO P\u00d3S-64<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s 64, com o golpe militar de direita, o reformismo, representado pela \u2018burguesia nacional\u2019 e cujos \u00f3rg\u00e3os PTB, PCB, PSB, Sindicatos, etc., eram sua base social, \u00e9 alijado praticamente do cen\u00e1rio pol\u00edtico. Desencadeia-se no Pa\u00eds uma campanha \u2018fascist\u00f3ide\u2019 de persegui\u00e7\u00e3o aos elementos tidos como subversivos. Muitos fugiram, outros ca\u00edram presos, houve aqueles at\u00e9 que foram assassinados.<\/p>\n<p>O governo teve nesse primeiro momento a inten\u00e7\u00e3o de golpear profundamente a classe oper\u00e1ria. No entanto, impossibilitado de realizar tal pol\u00edtica, eis que n\u00e3o tinha base social de sustenta\u00e7\u00e3o (a pequena burguesia que dois meses antes tinha marchado com Deus pela fam\u00edlia e pela liberdade abandonou Castelo Branco sozinho na Pra\u00e7a da S\u00e9 no Primeiro de Maio).<\/p>\n<p>E al\u00e9m disso, tendo em vista a necessidade de \u00f3rg\u00e3os que sirvam de v\u00e1lvulas de escape aos reclamos do povo, numa tentativa de evitar a organiza\u00e7\u00e3o clandestina da classe, permite elei\u00e7\u00f5es nos sindicatos. A lideran\u00e7a que teve condi\u00e7\u00f5es de participar das primeiras elei\u00e7\u00f5es sindicais foi apenas aquela que trazia as mesmas posi\u00e7\u00f5es conciliadoras de antes de 64. Agora havia uma diferen\u00e7a: n\u00e3o tinha mais a burguesia reformista para se apoiar, e o proletariado, devido \u00e0s amargas experi\u00eancias do passado, aprendeu a li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira tentativa dessa \u2018nova lideran\u00e7a\u2019 no sentido de poder aparecer perante a massa como algu\u00e9m que luta por seus interesses, foi na campanha pr\u00f3-estabilidade e contra o Fundo de Garantia por Tempo de Servi\u00e7o. Uma outra coisa foi a resist\u00eancia que os trabalhadores fizeram para n\u00e3o assinarem a \u2018nova lei\u2019, percebendo, inclusive, as raz\u00f5es pelas quais os patr\u00f5es tanto se interessam pela op\u00e7\u00e3o pelo FGTS. A experi\u00eancia ensina \u00e0 classe que se o patr\u00e3o diz que determinada lei \u00e9 ben\u00e9fica aos oper\u00e1rios, o correto \u00e9 exatamente o inverso da moeda, isto \u00e9, o que \u00e9 bom aos olhos dos patr\u00f5es \u00e9 nocivo aos trabalhadores.<\/p>\n<p>A queda da estabilidade, que havia sido conseguida \u00e0 custa de luta, contrariou profundamente, os oper\u00e1rios, por\u00e9m os pelegos n\u00e3o organizaram as massas, da\u00ed n\u00e3o se ter tido condi\u00e7\u00f5es para movimentos capazes de derrubar o FGTS.<\/p>\n<p>O arrocho salarial j\u00e1 fazia sentir as suas conseq\u00fc\u00eancias funestas para os trabalhadores. O desemprego e arbitrariedades patronais acentuavam-se. A classe movimenta-se sem encontrar ainda uma centraliza\u00e7\u00e3o. Surge uma nova oportunidade de os pelegos aparecerem perante a massa. \u00c9 criado o M.I.A. (Movimento Intersindical Anti-Arrocho), \u00f3rg\u00e3o intersindical de luta contra o arrocho. Por\u00e9m, os pelegos s\u00e3o derrotados com seu palavreado macio e seus m\u00e9todos de luta conciliadores, portanto insuficientes para conduzir a luta da classe, tais como abaixo-assinados, telegramas, entrevistas com as autoridades, etc.<\/p>\n<p>Em cada concentra\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, a vanguarda surgida nas f\u00e1bricas aparece com palavras de ordem de organiza\u00e7\u00e3o pela base atrav\u00e9s de comit\u00eas de empresa pregando a greve como forma de luta contra o arrocho. Essa vanguarda aglutinou-se objetivamente em torno do Sindicato dos Metal\u00fargicos de Osasco.<\/p>\n<p>Os metal\u00fargicos de Belo Horizonte responderam a essas palavras de ordem com a greve de onze dias, que se iniciou na Belgo-Mineira, estendendo-se a 16.000 oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>O surgimento da vanguarda oper\u00e1ria nas f\u00e1bricas, merece um estudo mais profundo, pois ela \u00e9 produto da necessidade da massa nesta etapa, apesar de exprimir-se ainda de maneira obscura. Como vimos, a lideran\u00e7a pelega n\u00e3o convenceu. A contradi\u00e7\u00e3o entre o car\u00e1ter social da produ\u00e7\u00e3o e o car\u00e1ter individual de sua apropria\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a necess\u00e1ria concentra\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios para produzirem em grande escala e de forma organizada, onde cada um cumpre a sua fun\u00e7\u00e3o, e a maneira desorganizada de como os produtos s\u00e3o distribu\u00eddos na sociedade, onde a minoria patronal fica com os lucros, gera uma luta constante e intensa entre oper\u00e1rios e patr\u00f5es que vai desde as formas mais simples at\u00e9 os choques mais diretos e violentos, em torno de in\u00fameros problemas que variam desde as reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de cada sec\u00e7\u00e3o at\u00e9 as lutas que atingem toda a classe.<\/p>\n<p>A massa com seus in\u00fameros problemas encontra as mais variadas formas de exprimi-los, que v\u00e3o desde contatos individuais at\u00e9 as formas coletivas e mais amplas de discuss\u00f5es nas f\u00e1bricas. De lutas como preserva\u00e7\u00e3o do 13\u00ba Sal\u00e1rio em 64, por problemas espec\u00edficos de cada f\u00e1brica (seguran\u00e7a, higiene, etc) levando os oper\u00e1rios \u00e0s greves parciais, inclusive logo ap\u00f3s o golpe, surgem aqueles que por melhor absorverem e entenderem a necessidade da classe e por se destacarem na condu\u00e7\u00e3o destas lutas, passam a merecer a sua confian\u00e7a, e a partir disso s\u00e3o impulsionados a conduzi-la para a solu\u00e7\u00e3o de suas necessidades e problemas do momento. Esse processo de luta \u00e9 a \u2018escola de guerra\u2019.<\/p>\n<p>Nas reivindica\u00e7\u00f5es da classe oper\u00e1ria manifestam-se sempre as contradi\u00e7\u00f5es dela com sua antag\u00f4nica no poder. Neste processo, a vanguarda tem consci\u00eancia de que o que interessa \u00e0 classe oper\u00e1ria n\u00e3o s\u00e3o apenas as concess\u00f5es dos exploradores, na medida em que continuar\u00e1 sendo explorada, mas a destrui\u00e7\u00e3o de toda a estrutura social que possibilita a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, a vanguarda organiza a classe, a educa e ganha sua confian\u00e7a nestas lutas parciais. As vit\u00f3rias obtidas nestas lutas estimulam a classe a prosseguir com reivindica\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas e d\u00e1 confian\u00e7a a esta mesma vanguarda, que compreende, tamb\u00e9m, a necessidade de uma organiza\u00e7\u00e3o de classe que vise a tomada do poder pela classe, com uma vis\u00e3o do contexto social capaz de avaliar as for\u00e7as e capaz de conduzir a classe em todos os n\u00edveis de sua luta at\u00e9 a tomada do poder.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o de luta da classe oper\u00e1ria brasileira \u00e9 quase que s\u00f3 em torno do movimento sindical e, a vanguarda que surge, dada a aus\u00eancia de uma organiza\u00e7\u00e3o de classe sob um programa revolucion\u00e1rio capaz de desenvolver as formas de luta que a conduza ao poder, acerca-se de sindicatos e a\u00ed ent\u00e3o surge o choque entre as dire\u00e7\u00f5es sindicais pelegas e aqueles que t\u00eam liga\u00e7\u00f5es com a classe. S\u00e3o as chamadas oposi\u00e7\u00f5es sindicais.<\/p>\n<p>As oposi\u00e7\u00f5es sindicais lan\u00e7am as palavras de ordem de organiza\u00e7\u00e3o pela base atrav\u00e9s dos C.E. e empreendem vigorosa campanha contra os pelegos sindicais. Muita coisa j\u00e1 se conseguiu de concreto com os trabalhos das oposi\u00e7\u00f5es, principalmente nas assembl\u00e9ias anti-arrocho programadas pelo MIA e na comemora\u00e7\u00e3o do \u00faltimo Primeiro de Maio na pra\u00e7a da S\u00e9. Essas palavras de ordem, por n\u00e3o virem acompanhadas de uma teoria program\u00e1tica que apresentasse concretamente as perspectivas e a concep\u00e7\u00e3o de tais formas de organiza\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica, caem no vazio.<\/p>\n<p>Nos setores onde existem os C.E., estes n\u00e3o funcionam como devem, isto porque foram formados na \u2018base\u2019 da improvisa\u00e7\u00e3o, contendo uma s\u00e9rie de desvios, o que prejudica muito a unidade da luta. Temos v\u00e1rios exemplos que demonstram, por um lado o esp\u00edrito de luta e o sentido revolucion\u00e1rio da vanguarda e, por outro, mostra a sua imaturidade pol\u00edtica e inexperi\u00eancia na organiza\u00e7\u00e3o da classe.<\/p>\n<p><strong>A GREVE DE OSASCO \u2013 BALAN\u00c7O CR\u00cdTICO<\/strong><\/p>\n<p>Antes de analisarmos o que foi a greve de Osasco e o que ela representou para o M.O. \u00e9 necess\u00e1rio definir o que \u00e9 uma greve.<\/p>\n<p>O oper\u00e1rio recebe um sal\u00e1rio pelo trabalho que executa para o patr\u00e3o. \u00c9 l\u00f3gico que o interesse do patr\u00e3o \u00e9 pagar menos sal\u00e1rios para que seu lucro seja maior. Por outro lado, o oper\u00e1rio que s\u00f3 tem a sua for\u00e7a de trabalho para vender, procura vend\u00ea-la pelo pre\u00e7o mais alto. Um oper\u00e1rio isoladamente n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de fazer frente \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o patronal e a \u00fanica forma de evitar que seu sal\u00e1rio seja rebaixado ou conseguir que estes sejam aumentados, \u00e9 unir-se com outros oper\u00e1rios que s\u00e3o v\u00edtimas da mesma explora\u00e7\u00e3o. A forma de se encaminhar esta luta \u00e9 paralisando o trabalho para conseguir as reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As greves surgem da pr\u00f3pria sociedade capitalista, \u00e9 uma forma bem simples em que se expressa a luta de classes. As greves mostram aos oper\u00e1rios a sua for\u00e7a e tamb\u00e9m as do patr\u00e3o. Mostram que o patr\u00e3o \u00e9 seu principal inimigo e que o governo protege sempre os patr\u00f5es e que tamb\u00e9m a pol\u00edcia existe para impedir as greves ou evitar as suas conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>A coloca\u00e7\u00e3o da palavra de ordem \u2018greve\u2019, mostrou para a vanguarda oper\u00e1ria de Osasco o estado de revolta da classe, motivado pelas conseq\u00fc\u00eancias do arrocho salarial e alta constante do custo de vida e que realmente haviam as condi\u00e7\u00f5es objetivas para deflagrar o movimento. Todos lan\u00e7aram-se na organiza\u00e7\u00e3o da greve empiricamente. Os C.E. rec\u00e9m-organizados, com exce\u00e7\u00e3o dos da Cobrasma, tinham a principal responsabilidade nessa tarefa. Reivindicava-se aumento salarial de 35%, aumento de tr\u00eas em tr\u00eas meses de acordo com a eleva\u00e7\u00e3o do custo de vida, contrato coletivo de trabalho por dois anos, e reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de cada f\u00e1brica.<\/p>\n<p>A vanguarda baseava-se nas necessidades imediatas da massa, por isso as reivindica\u00e7\u00f5es acima citadas, mas, por outro lado se explicava que o sentido mais importante da greve era o pol\u00edtico, na medida em que se lutava contra a lei do arrocho salarial e contra a pr\u00f3pria lei de greve, e que aquela a\u00e7\u00e3o era apenas uma parte da longa luta pela derrubada da ditadura dos patr\u00f5es.<\/p>\n<p>Evidencia-se inexperi\u00eancia dessa nova lideran\u00e7a na medida em que essa n\u00e3o soube conduzir no mesmo n\u00edvel a propaganda junto \u00e0s massas e a organiza\u00e7\u00e3o da vanguarda. Este descompasso entre a propaganda e a organiza\u00e7\u00e3o precipitou as condi\u00e7\u00f5es objetivas para a greve. Empolgada com a receptividade das massas, a vanguarda acaba por ficar a reboque destas, e ao inv\u00e9s de proceder uma an\u00e1lise do momento pol\u00edtico nacional, baixou a palavra de ordem da greve e de ocupa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas, sem estar subjetivamente em condi\u00e7\u00f5es, antecipando mesmo uma posi\u00e7\u00e3o anterior de se tirar a greve por ocasi\u00e3o do diss\u00eddio coletivo.<\/p>\n<p>Dado o car\u00e1ter ainda bastante limitado dos C.E., visto que funcionavam sem uma perspectiva clara e definida, estes passaram a se apoiar mais no aparelho sindical do que na organiza\u00e7\u00e3o da massa. A falta de clareza te\u00f3rica causada pela falta de discuss\u00e3o pol\u00edtica levou a vanguarda a n\u00e3o se preocupar em organizar uma estrutura clandestina paralela ao sindicato para dar continuidade \u00e0 luta na clandestinidade. Na pr\u00e1tica, subestimou as for\u00e7as da repress\u00e3o, achando que o governo iria negociar e n\u00e3o reprimir violentamente, inclusive intervindo imediatamente no sindicato.<\/p>\n<p>Comparou-se o M.O. que tem conseq\u00fc\u00eancias imediatas na economia e prepara a classe revolucion\u00e1ria para assumir a dire\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, e por isso \u00e9 bastante tem\u00edvel pela rea\u00e7\u00e3o, com movimentos de setores da pequena burguesia (estudantes, artistas, etc.) que por maiores perigos \u00e0 classe dominante. Esse imediatismo foi sentido em todos os momentos posteriores, o que obrigou a improvisa\u00e7\u00e3o. A ocupa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas devido \u00e0 falta de clareza, \u00e0 n\u00e3o planifica\u00e7\u00e3o, foi tamb\u00e9m improvisada, deu \u00e0 greve um car\u00e1ter insurrecional, quando a mesma era localizada e feita a partir de reivindica\u00e7\u00f5es de classe e n\u00e3o a partir de imposi\u00e7\u00f5es que a colocasse num enfrentamento definitivo com a burguesia. Com isso n\u00e3o queremos dizer que nas pr\u00f3ximas lutas a t\u00e1tica de ocupa\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas n\u00e3o deva ser utilizada.<\/p>\n<p>No passado, antes de 64 a pelegagem decretava greves e mandava os oper\u00e1rios para suas casas. Agindo assim, desmobilizavam a classe, evitando que ela se mantivesse unida e discutindo problemas que lhe estavam afetos, para que os conchavos com os patr\u00f5es n\u00e3o encontrasse resist\u00eancia nas bases oper\u00e1rias. A outra import\u00e2ncia da ocupa\u00e7\u00e3o reside no fato que as greves com as ocupa\u00e7\u00f5es das f\u00e1bricas, experi\u00eancia rec\u00e9m-iniciada no Brasil, ultrapassam os limites das reivindica\u00e7\u00f5es normais dentro do capitalismo. Independentemente das reivindica\u00e7\u00f5es grevistas, a ocupa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria das empresas acerta um golpe no \u00eddolo da propriedade capitalista.<\/p>\n<p>Toda greve de ocupa\u00e7\u00e3o, independente do objetivo reivindicat\u00f3rio que a determinou, coloca na pr\u00e1tica o problema de saber quem \u00e9 o dono da f\u00e1brica: o patr\u00e3o ou os oper\u00e1rios. A ocupa\u00e7\u00e3o poderia se dar com um prazo determinado, objetivando discuss\u00e3o pol\u00edtica com toda a massa no sentido de se ter consci\u00eancia do pr\u00f3prio significado das ocupa\u00e7\u00f5es, sobre os objetivos da greve e a necessidade de sua extens\u00e3o a outras f\u00e1bricas. Quando as f\u00e1bricas fossem desocupadas, a massa deveria sair mobilizada para a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas como piquetes, panfletagem, etc, em outras f\u00e1bricas ainda n\u00e3o em greve, e atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o por bairros permaneceria em constante mobiliza\u00e7\u00e3o, objetivando discuss\u00e3o pol\u00edtica, em grupos pequenos se assim o exigissem as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. A greve de Osasco mostrou que \u00e9 poss\u00edvel conduzir a classe para um enfrentamento com a ditadura patronal, sendo para isso necess\u00e1rio organiz\u00e1-la. Significa uma nova e grande experi\u00eancia para todo o movimento revolucion\u00e1rio brasileiro.<\/p>\n<p>Apesar de ter sido propagado pela imprensa burguesa e alguns oportunistas de \u2018esquerda\u2019 que a greve de Osasco n\u00e3o havia conseguido nenhum de seus objetivos, h\u00e1 fatos que falam bem alto para a massa: os aumentos recebidos pelos oper\u00e1rios de v\u00e1rias f\u00e1bricas (Cobrasma, de 15 a 35%, Cimaf 10%, etc), indeniza\u00e7\u00e3o aos companheiros demitidos, e o atendimento de reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas como: higiene, seguran\u00e7a, insalubridade, enfermaria, etc., que vem se dando a partir da greve, deixa claro aos oper\u00e1rios que: isto s\u00e3o vit\u00f3rias parciais da greve; a greve \u00e9 uma forma de luta para conseguirmos nossas reivindica\u00e7\u00f5es, pois se obtemos melhores resultados em nossa luta, necessitamos elevar o nosso n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o, e aumentar as discuss\u00f5es pol\u00edticas para despertar a consci\u00eancia de luta nos mais amplos setores da massa.<\/p>\n<p>Com a greve, o sindicato caiu nas m\u00e3os de policiais, centenas de companheiros foram presos, dezenas perderam seus empregos, grande parte perdeu seus dias de trabalho, muitos companheiros est\u00e3o na ilegalidade e apesar disso tudo, ningu\u00e9m se arrepende de ter aderido \u00e0 greve; aqueles que n\u00e3o aderiram ao movimento s\u00e3o desprezados pelos companheiros, o que n\u00e3o significa que para as pr\u00f3ximas lutas n\u00e3o se deva discutir e aprofundar com eles no sentido de que avancem e participem do movimento.<\/p>\n<p><em><strong>Ficou claro para as lideran\u00e7as que:<\/strong><\/em><\/p>\n<p>1) Apesar da repress\u00e3o brutal que impossibilitou a extens\u00e3o e continuidade da greve, a demonstra\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de luta de classe, fez os patr\u00f5es cederem em v\u00e1rias reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>2) A brutalidade da repress\u00e3o foi prejudicial para o movimento em si, por\u00e9m ben\u00e9fica a longo prazo, dado o avan\u00e7o pol\u00edtico da massa, com o desmascaramento da ditadura, deixando claro que reprimir\u00e1 violentamente qualquer luta justa da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>3) Na luta a classe elevou o seu n\u00edvel de consci\u00eancia devido \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de assembl\u00e9ias, discuss\u00e3o pol\u00edtica, possibilitando maior aceita\u00e7\u00e3o das palavras de ordem das lideran\u00e7as, e o surgimento de novas lideran\u00e7as, o que facilitou a organiza\u00e7\u00e3o dos mais amplos setores da massa, que vem se dando atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o de n\u00facleos clandestinos para discuss\u00e3o pol\u00edtica e realiza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Apesar de tudo o que houve, a disposi\u00e7\u00e3o de luta continua e isso nos permite dizer que \u2018os homens que n\u00e3o se sujeitam e resistem a tais calamidades para quebrar a resist\u00eancia de meia d\u00fazia de burgueses, saber\u00e3o sem d\u00favida tamb\u00e9m quebrar a for\u00e7a de toda a burguesia\u2019.<\/p>\n<h3><strong>PERSPECTIVAS PARA O FUTURO DA LUTA<\/strong><\/h3>\n<p>Os setores conscientes da classe oper\u00e1ria, sua vanguarda, n\u00e3o podem ter mais d\u00favidas quanto \u00e0 exist\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es objetivas de se fazer grves. S\u00f3 falta criar condi\u00e7\u00f5es subjetivas, que se resumem na organiza\u00e7\u00e3o da classe. Aproxima-se o diss\u00eddio coletivo para todas as categorias; sabemos que dentro das leis de arrocho o aumento n\u00e3o corresponder\u00e1 nem \u00e0 metade da eleva\u00e7\u00e3o do custo de vida no ano de 68, isso sem contar o que perdemos nos anos anteriores.<\/p>\n<p>Os pelegos sindicais, percebendo a disposi\u00e7\u00e3o da classe, mais uma vez far\u00e3o manobra para engan\u00e1-la, dizendo que \u2018n\u00e3o entraremos em diss\u00eddio, exigiremos um aumento salarial digno e se n\u00e3o for concedido entraremos em greve\u2019. Essa t\u00e1tica oportunista j\u00e1 \u00e9 velha e tamb\u00e9m conhecemos a sua sa\u00edda. Se o sindicato n\u00e3o entra em diss\u00eddio, o patr\u00e3o entra, e da\u00ed eles dir\u00e3o que \u2018n\u00e3o estamos preparados para a greve, que ningu\u00e9m tem o direito de, numa aventura, jogar pais de fam\u00edlia no abismo, etc\u2019.<\/p>\n<p>Os pelegos para sobreviverem se ap\u00f3iam na desorganiza\u00e7\u00e3o da classe. A vanguarda, para ser a dire\u00e7\u00e3o aut\u00eantica da classe, deve organiz\u00e1-la e apoiar-se na sua organiza\u00e7\u00e3o. O arrocho salarial est\u00e1 a\u00ed. A t\u00e1tica de combat\u00ea-lo \u00e9 a greve. No processo das greves, a vanguarda amadurecer\u00e1 como dire\u00e7\u00e3o, e a classe compreender\u00e1 que o arrocho \u00e9 apenas uma faceta do poder patronal e que s\u00f3 ficar\u00e1 livre dos arrochos quando derrubar esse poder numa luta prolongada, debaixo de um programa socialista revolucion\u00e1rio de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tarefa da vanguarda de cada categoria, de cada f\u00e1brica \u00e9 preparar as condi\u00e7\u00f5es subjetivas de organiza\u00e7\u00e3o, para com ou apesar dos pelegos, lutarmos concretamente por um aumento salarial menos injusto. Desde j\u00e1 deve-se iniciar a forma\u00e7\u00e3o dos comit\u00eas de greves por sec\u00e7\u00e3o, por f\u00e1bricas e por munic\u00edpios. N\u00e3o devemos nos iludir nesta etapa com uma greve geral. Devemos sim, concentrar nossas for\u00e7as nas f\u00e1bricas onde existem melhores condi\u00e7\u00f5es de greve. Lembrem-se que a greve de 16.000 metal\u00fargicos mineiros, at\u00e9 o 6\u00ba dia s\u00f3 acontecia na Belgo-Mineira, e em Osasco a greve iniciou-se em quatro f\u00e1bricas, estendendo-se s\u00f3 a partir do dia seguinte.<\/p>\n<p>Uma greve apavora os patr\u00f5es. (Quando a classe dos trabalhadores luta) para eles pr\u00f3prios, na medida em que lutam por seus interesses, ela (a greve) coloca em d\u00favida aqueles que se julgam senhores onipotentes dos meios de produ\u00e7\u00e3o, ela leva os patr\u00f5es a fazerem concess\u00f5es e arrasta companheiros de outras f\u00e1bricas \u00e0 ades\u00e3o, n\u00e3o somente em solidariedade, mas porque s\u00e3o v\u00edtimas da mesma explora\u00e7\u00e3o e s\u00e3o encorajados a tomar posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os grevistas de Osasco e a sua vanguarda levam as seguintes reivindica\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter geral e as propomos a outras categorias na certeza de que v\u00e3o ao encontro dos interesses de toda a classe:<\/p>\n<p>a) Aumento salarial de acordo com a eleva\u00e7\u00e3o do custo de vida.<\/p>\n<p>b) Contrato coletivo de trabalho, isto como forma de combate ao desemprego.<\/p>\n<p>c) Aumento salarial de tr\u00eas em tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>As reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de cada f\u00e1brica devem ser levantadas \u2018in loco\u2019 pelos companheiros, pois ajudar\u00e1 muito na mobiliza\u00e7\u00e3o da massa.<\/p>\n<p><strong>PARALISA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>A paralisa\u00e7\u00e3o de cada f\u00e1brica deve apoiar-se na organiza\u00e7\u00e3o dos Comandos Clandestinos internos. A forma de paralisa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de piquetes nas portas de f\u00e1bricas est\u00e1 superada, o piquete deve ser fator de est\u00edmulo para que outros adiram ao movimento e n\u00e3o como fator de imposi\u00e7\u00e3o no sentido de se aderir \u00e0 greve.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica demonstrou que a forma mais correta e educativa para a massa \u00e9 a greve partindo da organiza\u00e7\u00e3o interna atrav\u00e9s dos comandos clandestinos de cada sec\u00e7\u00e3o, parando uma a uma, com a massa de cada sec\u00e7\u00e3o para engrossar as fileiras e indo parar as outras. Isso funciona se existir organiza\u00e7\u00e3o, estimula os vacilantes e impede a identifica\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes. A sa\u00edda das f\u00e1bricas deve ser em massa, pois grupos isolados tornam-se presas f\u00e1ceis para a repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Os comandos clandestinos da greve devem ser organizados ao n\u00edvel de cada sec\u00e7\u00e3o, cada f\u00e1brica, cada munic\u00edpio. Com o avan\u00e7o do processo, ser\u00e1 necess\u00e1ria a forma\u00e7\u00e3o de comandos gerais, a fim de coordenar a luta em n\u00edvel nacional.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a experi\u00eancia dos trabalhadores de Osasco. O objetivo deste documento \u00e9 fornecer dados de an\u00e1lise a toda a vanguarda revolucion\u00e1ria brasileira na luta pela transforma\u00e7\u00e3o social, pelo socialismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ibrahim<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Campos Barreto<\/p>\n<p>Outubro de 1968\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em outubro de 1968, ap\u00f3s sair da pris\u00e3o de 98 dias, Zequinha Barreto e Jos\u00e9 Ibrahim escreveram um texto sobre o balan\u00e7o da greve de julho em Osasco. No final, a reflex\u00e3o \u00e9 encerrada com os seguintes dizeres: &nbsp; &nbsp; \u201cEsta \u00e9 a experi\u00eancia dos trabalhadores de Osasco. 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