{"id":257,"date":"2020-12-14T10:58:34","date_gmt":"2020-12-14T13:58:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/?p=257"},"modified":"2020-12-15T17:42:39","modified_gmt":"2020-12-15T20:42:39","slug":"a-vida-de-zequinha-barreto-um-revolucionario-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/index.php\/2020\/12\/14\/a-vida-de-zequinha-barreto-um-revolucionario-brasileiro\/","title":{"rendered":"A vida de Zequinha Barreto, um revolucion\u00e1rio brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Campos Barreto, Zequinha, nasceu em Brotas de Maca\u00fabas, Bahia, em 02 de outubro de 1946, e em 2020 faria 74 anos. Seus pais foram Jos\u00e9 de Ara\u00fajo Barreto, um agricultor e comerciante pr\u00f3spero de Brotas, e Adelaide Campos Barreto, dom\u00e9stica. Al\u00e9m de Zequinha, o mais velho de todos, a fam\u00edlia tinha mais 6 irm\u00e3os, Olderico Campos Barreto, preso e torturado pela ditadura militar em agosto de 1971, sobreviveu aos \u2018anos de chumbo\u2019 e atualmente reside em sua terra natal, na Bahia; Otoniel Campos Barreto, que morreu assassinado pela repress\u00e3o da ditadura em agosto de 1971, poucos dias antes de seu irm\u00e3o Zequinha; Olival Campos Barreto, \u2018Div\u00e1\u2019, que ainda menino na Bahia, sobreviveu \u00e0 invas\u00e3o de sua casa na mesma ocasi\u00e3o, e que atualmente vive em Osasco, S\u00e3o Paulo; Maria Dolores de Campos Barreto, que tamb\u00e9m vive em Osasco; Ana Campos Barreto, que reside no bairro de Santo Amaro, na Capital; e Edinalva Campos Barreto, que vive na Europa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_258\" aria-describedby=\"caption-attachment-258\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-jnews-750x536 wp-image-258\" src=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Olderico_Zequinha_Otoniel_1958_c_legenda-750x536.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"536\" srcset=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Olderico_Zequinha_Otoniel_1958_c_legenda-750x536.jpg 750w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Olderico_Zequinha_Otoniel_1958_c_legenda-120x86.jpg 120w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Olderico_Zequinha_Otoniel_1958_c_legenda-350x250.jpg 350w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Olderico_Zequinha_Otoniel_1958_c_legenda-1140x815.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-258\" class=\"wp-caption-text\">Olderico (esq.), Zequinha Barreto e Otoniel, os irm\u00e3os em 1958. (Foto: Arquivo Familiar)<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Quem era o menino Jos\u00e9, e como se tornou \u201cZequinha\u201d<\/h2>\n<p>Aos 12 anos de idade, Zequinha ingressou no Semin\u00e1rio, um desejo de seu pai que o queria como Padre. O menino n\u00e3o foi consultado sobre o assunto, e seguiu resignado para o seu destino. Muito religioso, seu pai costumava dizer que \u201ca gente nasceu pra ser Santo, n\u00e3o pra ser gente\u201d. O Semin\u00e1rio ficava em Garanhuns, Pernambuco, e Zequinha passou a ver seus familiares apenas nos finais de ano.<\/p>\n<p>Em 1964, aos 17 anos, Zequinha abandonou o Semin\u00e1rio e voltou para sua casa. Ele j\u00e1 se tornara uma lideran\u00e7a em sua fam\u00edlia e na sua comunidade. Participava da vida cultural da cidade e da regi\u00e3o, mas sem ter contato com organiza\u00e7\u00f5es camponesas ou estudantis. Adquiriu uma orat\u00f3ria pr\u00f3pria do Semin\u00e1rio, mas j\u00e1 discutia a \u201cAlian\u00e7a para o Progresso\u201d, um programa estadunidense (de antes da Ditadura) de ajuda aos pa\u00edses mais pobres. Acontece que os produtos (alimentos, mantimentos em geral) deveriam ser distribu\u00eddos gratuitamente aos flagelados da Seca, mas muitos \u2018coron\u00e9is\u2019 do Nordeste desviavam os produtos e os vendiam. Zequinha, por este motivo, passou a lutar para que as embalagens destas doa\u00e7\u00f5es viessem com inscri\u00e7\u00f5es proibindo a venda e a frase: \u201cDistribui\u00e7\u00e3o Gratuita\u201d.<\/p>\n<p>Mas Zequinha ainda n\u00e3o havia tido contato com as id\u00e9ias socialistas. Um comerciante de sua cidade dizia-se \u2018te\u00f3rico\u2019 do socialismo. Quando Zequinha come\u00e7ou a voltar-se para as id\u00e9ias socialistas, convidou o comerciante a \u2018partir para a pr\u00e1tica\u2019, mas n\u00e3o foi atendido.<\/p>\n<p>No ano de 1964, ap\u00f3s abandonar o Semin\u00e1rio, Zequinha passou a trabalhar com seu irm\u00e3o, Olderico, em diversos acampamentos de minera\u00e7\u00e3o como garimpeiro. A empreitada n\u00e3o deu certo, e Zequinha mudou-se para S\u00e3o Paulo, onde tinha parentes em Osasco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_259\" aria-describedby=\"caption-attachment-259\" style=\"width: 360px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-259 size-jnews-360x504\" src=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Zequinha_Exercito-360x504.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"504\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-259\" class=\"wp-caption-text\">Zequinha em foto do Servi\u00e7o Militar (1964<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Em Osasco, Zequinha serve o Ex\u00e9rcito e inicia a milit\u00e2ncia de Esquerda<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Zequinha Barreto chega a S\u00e3o Paulo em 1964 e fixa resid\u00eancia em Osasco, na regi\u00e3o metropolitana. Naquele mesmo ano, Zequinha Barreto cumpriu o servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio no ex\u00e9rcito, sendo promovido a Cabo. Seu servi\u00e7o militar foi prestado no forte de Quita\u00fana, em Osasco.<\/p>\n<p>Em 1965 iniciou contatos com os movimentos de oper\u00e1rios e estudantes da cidade, que eram muito avan\u00e7ados para a \u00e9poca. Apesar da rec\u00e9m-instalada ditadura militar, os jovens e oper\u00e1rios de Osasco viviam em plena efervesc\u00eancia pol\u00edtica. Zequinha gostava de m\u00fasica e sempre sa\u00eda acompanhado de seu pequeno viol\u00e3o azul, animando os grupos de estudantes que conhecia. Em 1966, j\u00e1 trabalhando como oper\u00e1rio em Osasco, entrou para o movimento estudantil, ajudando a fundar o CEO (C\u00edrculo Estudantil Osasquense), no qual chegou \u00e0 presid\u00eancia, al\u00e9m de participar de um grupo de teatro amador. Era um s\u00edmbolo da alian\u00e7a oper\u00e1ria\/estudantil.<\/p>\n<p>Para sobreviver, trabalhava na Cobrasma, uma f\u00e1brica com alto grau de politiza\u00e7\u00e3o de seus trabalhadores. Ali, logo integrou-se \u00e0 Comiss\u00e3o de F\u00e1brica, da qual Jos\u00e9 Ibraim era seu presidente.<\/p>\n<h2>Come\u00e7a a milit\u00e2ncia de Zequinha em grupos de resist\u00eancia \u00e0 ditadura<\/h2>\n<p>Na f\u00e1brica, foi um dos l\u00edderes da Oposi\u00e7\u00e3o Sindical que levou Jos\u00e9 Ibraim \u00e0 presid\u00eancia do Sindicato dos Metal\u00fargicos de Osasco, juntamente com os companheiros da FNT (Frente Nacional do Trabalho), impondo uma fragorosa derrota aos \u2018pelegos\u2019. Era o ano de 1967, e a ditadura militar come\u00e7ava a recrudescer.<\/p>\n<p>Convidado por Jos\u00e9 Ibraim e outros l\u00edderes da esquerda sindical, Zequinha passou a manter contato com Organiza\u00e7\u00f5es socialistas, como a Colina (de Minas Gerais), atrav\u00e9s do militante Jorge Batista, de membros da dissid\u00eancia da POLOP (Organiza\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria Marxista Pol\u00edtica Oper\u00e1ria), e da ALN (Alian\u00e7a Libertadora Nacional), de Carlos Marighela.<\/p>\n<p>Aos poucos, quase todos os l\u00edderes oper\u00e1rios e estudantis de Osasco, inclusive Zequinha Barreto, j\u00e1 se agrupavam dentro da VPR (Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria).<\/p>\n<p>\u00c9 preciso acrescentar aqui uma informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de grande import\u00e2ncia. Em 1968, com o alto grau de organiza\u00e7\u00e3o dos estudantes e trabalhadores de Osasco, o regime militar come\u00e7a a justificar o per\u00edodo da ditadura batizado como \u201cAnos de Chumbo\u201d. Numa manifesta\u00e7\u00e3o da UNE no Rio de Janeiro, o estudante \u00c9dson Luiz foi assassinado, gerando grande revolta no meio estudantil e democr\u00e1tico. Os protestos nos funerais daquele jovem, acabaram causando uma grande manifesta\u00e7\u00e3o em Osasco. Era o m\u00eas de mar\u00e7o, e a repress\u00e3o se intensificava. Na passeata de Osasco, Zequinha Barreto e outros l\u00edderes da juventude da \u00e9poca, como Roque da Silva, ostentaram na frente uma bandeira dos \u2018Vietcongues\u2019, a mil\u00edcia comunista armada do Vietn\u00e3 do Norte que lutava contra o governo do Sul (os sul-vietnamitas recebiam o apoio da CIA e do ex\u00e9rcito dos EUA). O Ex\u00e9rcito ficou revoltado e oficiais da \u00e9poca chegaram a exigir autoriza\u00e7\u00e3o para prender todo mundo. At\u00e9 a cassa\u00e7\u00e3o do prefeito do MDB teria sido cogitada. O estudante Roque, que era assessor da prefeitura, indicado pelo movimento estudantil, foi demitido a mando do ex\u00e9rcito, e os estudantes romperam rela\u00e7\u00f5es com o prefeito.<\/p>\n<h2>1\u00ba de Maio de 1968 na S\u00e9: fogo no palanque do Governador<\/h2>\n<p>Ap\u00f3s estes eventos, veio o 1\u00ba de Maio que marcou a hist\u00f3ria de Osasco, de S\u00e3o Paulo e do Pa\u00eds. Decididos a repudiar a \u2018festa\u2019 que a ditadura e o governador bi\u00f4nico Roberto Costa de Abreu Sodr\u00e9 haviam preparado em conjunto com os sindicatos pelegos, os estudantes e trabalhadores de Osasco realizaram uma a\u00e7\u00e3o de sabotagem da festa preparada pela ditadura na Pra\u00e7a da S\u00e9. Escondidos entre os demais trabalhadores presentes ao evento, o grupo de Osasco, acompanhado por outros membros da Oposi\u00e7\u00e3o Sindical em S\u00e3o Paulo, iniciou um tumulto em frente ao palanque, quando o governador j\u00e1 estava no local. Abreu Sodr\u00e9, seus assessores, os sindicalistas pelegos e at\u00e9 a pol\u00edcia, foram todos expulsos do palanque, que em seguida foi destru\u00eddo. O governador foi atingido por uma pedrada na cabe\u00e7a e saiu sangrando do local, socorrido por assessores e policiais, sob vaias dos trabalhadores. Em passeata, liderados por Zequinha Barreto, Jos\u00e9 Ibraim e outros, mais de 1.500 trabalhadores e estudantes, rumaram em passeata, da S\u00e9 \u00e0 Pra\u00e7a da Rep\u00fablica. No caminho, gritavam as palavras de ordem: \u201cAbaixo a Ditadura\u201d e outras express\u00f5es contra o regime militar. V\u00e1rias fachadas de Bancos e empresas estrangeiras foram destru\u00eddas com pedradas.<\/p>\n<p>Ao chegar na Rep\u00fablica, o grupo ouviu v\u00e1rios discursos. O mais inflamado foi Zequinha Barreto, um dos primeiros a falar abertamente, em p\u00fablico no Brasil, conclamando os trabalhadores e estudantes do Pa\u00eds a enfrentarem a ditadura atrav\u00e9s da luta armada. Naquela \u00e9poca, Zequinha j\u00e1 tinha uma vida dupla, exercendo algumas atividades na clandestinidade, como a prepara\u00e7\u00e3o da grande greve dos trabalhadores de Osasco, que seria realizada pouco depois.<\/p>\n<h2>A grande Greve de Osasco, em 1968<\/h2>\n<p>No dia 16 de julho de 1968 era deflagrada, \u00e0s 8h45, a greve dos oper\u00e1rios de Osasco. Zequinha, que trabalhava na Cobrasma, era um dos l\u00edderes do movimento. Braseixos, Lonaflex, Barreto Keller, F\u00f3sforos Granada, Brown-Boveri e outras empresas tamb\u00e9m pararam as m\u00e1quinas. Os trabalhadores ocuparam as f\u00e1bricas e se prepararam para resistir.<\/p>\n<p>No mesmo dia, a For\u00e7a P\u00fablica (PM) foi chamada e, com a ajuda do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, cercou as f\u00e1bricas, exigindo a retirada dos trabalhadores. Zequinha foi um dos \u00faltimos a resistir, acabando preso. Ele ainda tentou dissuadir os soldados a n\u00e3o invadirem a f\u00e1brica, fazendo discursos sobre a luta de classes e que os militares tamb\u00e9m eram filhos de trabalhadores, pregando a desobedi\u00eancia dos pra\u00e7as a seus oficiais. N\u00e3o adiantou. Com rajadas de metralhadoras e bombas de g\u00e1s, aquela e as outras empresas foram sendo desocupadas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_260\" aria-describedby=\"caption-attachment-260\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-jnews-750x536 wp-image-260\" src=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Osasco-Greve-Retomada-Cobrasma-1968_c_legenda-750x536.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"536\" srcset=\"http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Osasco-Greve-Retomada-Cobrasma-1968_c_legenda-750x536.jpg 750w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Osasco-Greve-Retomada-Cobrasma-1968_c_legenda-120x86.jpg 120w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Osasco-Greve-Retomada-Cobrasma-1968_c_legenda-350x250.jpg 350w, http:\/\/www.zequinhabarreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/05_Osasco-Greve-Retomada-Cobrasma-1968_c_legenda-1140x815.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-260\" class=\"wp-caption-text\">Oper\u00e1rios presos na noite de 16 de Julho de 1968 &#8211; Osasco SP<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em entrevista ao Boletim Unidade e Luta, muitos anos depois, sobre a greve da Cobrasma, Z\u00e9 Ibraim declarou: \u201cO Barreto aproximou-se da cerca e fez um discurso para os soldados, conclamando-os a n\u00e3o acatar as ordens, a n\u00e3o reprimir os trabalhadores. Foi uma cena impressionante, toda a massa se colocou atr\u00e1s dele e os soldados vacilaram. A oficialidade da For\u00e7a P\u00fablica teve que usar a firmeza para faze-los avan\u00e7ar (&#8230;). Houve muito combate corpo a corpo, os oper\u00e1rios estavam dispostos a brigar (&#8230;). O Barreto foi preso quando estava dirigindo a fuga. Ele havia se transformado no cabe\u00e7a do movimento na Cobrasma, atraindo sobre si a aten\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. Junto com os outros companheiros, estava dando cobertura a um grupo de oper\u00e1rios quando apareceu o pelot\u00e3o da For\u00e7a P\u00fablica. Ent\u00e3o o Barreto acendeu uma tocha, correu para perto do dep\u00f3sito de gasolina e gritou: \u2018 \u2013 Ou voc\u00eas param ou vai todo o mundo para o inferno\u2019. O pelot\u00e3o parou e todos conseguiram escapar. Ele pulou o muro por \u00faltimo, mas foi preso do outro lado, porque a For\u00e7a P\u00fablica j\u00e1 tinha se mobilizado para agarr\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>Da f\u00e1brica, Zequinha saiu diretamente para a pris\u00e3o, sendo fichado pelo DEOPS e permanecendo preso por 98 dias, sofrendo torturas para entregar os nomes dos organizadores da greve. Torturas em v\u00e3o. Zequinha n\u00e3o entregou nenhum companheiro, suportando as torturas e o per\u00edodo de mais de tr\u00eas meses de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Em outubro de 1968, ap\u00f3s sair da pris\u00e3o, Zequinha Barreto e Jos\u00e9 Ibraim escreveram um texto sobre o balan\u00e7o da greve de julho em Osasco. No final, a reflex\u00e3o \u00e9 encerrada com os seguintes dizeres: \u201cEsta \u00e9 a experi\u00eancia dos trabalhadores de Osasco. O objetivo deste documento \u00e9 fornecer dados de an\u00e1lise a toda a vanguarda revolucion\u00e1ria brasileira, na luta pela transforma\u00e7\u00e3o social, pelo socialismo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Uma vida simples, e muito amor em fam\u00edlia<\/h2>\n<p>Os grandes amigos de Zequinha Barreto, foram sem d\u00favida seus irm\u00e3os Olderico e Otoniel Campos Barreto. Otoniel morreu na \u2018Opera\u00e7\u00e3o Paju\u00e7ara\u2019n (1971), um cerco comandado pelo delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury e pelo coronel Newton Cerqueira na Bahia (terra de Zequinha), e Olderico, apesar de ferido gravemente e preso, sobreviveu.<\/p>\n<p>Olderico era dois anos mais novo que Zequinha, e at\u00e9 hoje dedica parte de seu tempo a honrar e lembrar a vida de seu irm\u00e3o. Quando crian\u00e7as, Zequinha sempre protegia o mais novo. Ambos tinham de cumprir tarefas duras de adultos, como cuidar da ro\u00e7a e do gado, desde a madrugada at\u00e9 o anoitecer. Quando Zequinha, aos 11 anos, era castigado nas m\u00e3os, Olderico, de apenas 9, tamb\u00e9m oferecia suas m\u00e3os para o castigo. Desta forma, seu pai acabava abandonando o castigo.<\/p>\n<p>Certa ocasi\u00e3o, quando um cavalo da fam\u00edlia fugiu sert\u00e3o adentro \u00e0 noite, Zequinha desesperou-se, pois sabia que ele e seu pequeno irm\u00e3o seriam castigados se o animal n\u00e3o fosse resgatado, al\u00e9m de ser muito importante para a lida no campo. Mandou Olderico voltar para casa, e partiu sozinho em busca do cavalo. Andou mais de 10 quil\u00f4metros, e por volta da meia-noite, quando toda a fam\u00edlia e vizinhos j\u00e1 o procuravam desesperados, apareceu Zequinha, montado no cavalo, entrando pelo s\u00edtio da fam\u00edlia. Olderico, ao lembrar deste epis\u00f3dio, chega \u00e0s l\u00e1grimas ao afirmar: \u201cNaquela noite, meu pai n\u00e3o nos castigou, e o Zequinha foi recebido com al\u00edvio e respeito de todos. Ele j\u00e1 era um homem, e tinha s\u00f3 11 anos de idade\u201d. Em Osasco, Zequinha foi muito amigo de Jos\u00e9 Ibraim, de Roque da Silva e muitos outros companheiros. Na clandestinidade, conheceu o capit\u00e3o Carlos Lamarca, por quem nutria grande admira\u00e7\u00e3o, mas com quem conviveu por pouco tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Zequinha e o lend\u00e1rio Capit\u00e3o Lamarca: juntos, o destino de ambos foi selado<\/h2>\n<p>Segundo o irm\u00e3o sobrevivente de Zequinha, Olderico Campos Barreto, em entrevista ao Instituto Zequinha Barreto (21\/04\/05), Lamarca j\u00e1 estava na clandestinidade, em plena luta armada, quando entra em contato com Zequinha Barreto pela primeira vez. Ambos j\u00e1 eram procurados pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o como \u2018terroristas\u2019. O Capit\u00e3o Carlos Lamarca havia levado de seu pr\u00f3prio quartel, no forte de Quita\u00fana, uma Kombi cheia de armas e explosivos, ap\u00f3s sair fardado da unidade, sem levantar suspeitas. Mergulhou na guerrilha e passou a ser o inimigo n\u00famero um do ex\u00e9rcito e da ditadura, considerado o maior traidor das for\u00e7as armadas, que devia ser ca\u00e7ado e morto a qualquer custo.<\/p>\n<p>Segundo Olderico, \u201co saldo de 68, 69 e 70, era s\u00f3 perda; e quando Lamarca passa a querer repensar esse movimento, e encontra organiza\u00e7\u00f5es como a ALN (Alian\u00e7a Libertadora Nacional), que insistia num processo de luta armada, \u00e9 que eles v\u00e3o se encontrar no MR-8 (Movimento Revolucion\u00e1rio 8 de Outubro), o Larmarca e o Zequinha. E dessa discuss\u00e3o, eu comecei a participar dela. O MR-8, que tinha este nome em homenagem a Che Guevara\u201d. Olderico afirma que da terceira reativa\u00e7\u00e3o do MR-8 participam Zequinha e Lamarca, onde permanecem at\u00e9 a morte de ambos na localidade de Pintadas, em Brotas de Maca\u00fabas, no sert\u00e3o baiano, em 1971.<\/p>\n<p>Lamarca, que havia \u2018rachado\u2019 com a ALN por entender que as a\u00e7\u00f5es armadas n\u00e3o deveriam ser o \u00fanico objetivo da luta revolucion\u00e1ria, fica isolado no novo MR-8, juntamente com Zequinha Barreto e outros companheiros. Com o cerco militar cada vez maior, Lamarca e Zequinha saem disfar\u00e7ados de S\u00e3o Paulo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Bahia, na terra de seus pais, para rearticular a luta contra a ditadura, j\u00e1 que ambos se recusavam a exilar-se fora do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Zequinha prop\u00f5e \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o (MR-8) a realiza\u00e7\u00e3o de um trabalho pol\u00edtico junto aos camponeses de sua terra natal, Buriti Cristalino (em Brotas de Maca\u00fabas), com vistas \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o da guerrilha rural. Juntam-se a ele seus irm\u00e3os Otoniel e Olderico, assim como Luiz Antonio Santa B\u00e1rbara, Jo\u00e3o Lopes Salgado e o Capit\u00e3o Carlos Lamarca.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de ficar no Brasil e lutar at\u00e9 o fim, selaria o destino de todos, bem como da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que abra\u00e7aram. Conseguiram permanecer an\u00f4nimos por algum tempo, mas logo alguns caboclos denunciam a presen\u00e7a estranha \u00e0s for\u00e7as militares da Bahia.<\/p>\n<p>Em contato com o ex\u00e9rcito e o DEOPS de S\u00e3o Paulo, foi montada uma a\u00e7\u00e3o secreta da repress\u00e3o, chamada \u2018Opera\u00e7\u00e3o Paju\u00e7ara\u2019, para esmagar o MR-8 e matar o Capit\u00e3o Lamarca. Nesse per\u00edodo, Zequinha permaneceu o tempo todo ao lado de Carlos Lamarca.<\/p>\n<p>Em 28 de agosto de 1971, o temido delegado da repress\u00e3o, S\u00e9rgio Paranhos Fleury e seus comandados, cercam a cidade de Brotas de Maca\u00fabas. Tentam invadir a casa da fam\u00edlia Barreto atirando com fuzis e metralhadoras. Olderico \u00e9 ferido gravemente na m\u00e3o e na cabe\u00e7a. \u00c9 feito prisioneiro, juntamente com seus irm\u00e3os. Outros s\u00e3o assassinados. O pai, Jos\u00e9 Barreto, um homem idoso, \u00e9 barbaramente torturado para entregar o local de esconderijo de Zequinha e do Capit\u00e3o Lamarca. Vendo a cena, outro irm\u00e3o, Otoniel se desespera pelo sofrimento do pai e decide fugir. Apodera-se de uma arma, dispara contra os soldados e tenta correr em dire\u00e7\u00e3o ao esconderijo para alertar o irm\u00e3o e Lamarca, mas \u00e9 ferido mortalmente com um tiro nas costas. A a\u00e7\u00e3o e os tiros alertam Zequinha e Lamarca, que se embrenham no sert\u00e3o e conseguem fugir do cerco.<\/p>\n<p>20 dias depois, em 17 de setembro de 1971, o Ex\u00e9rcito consegue encontrar, cercar e matar a tiros o Capit\u00e3o Lamarca e Jos\u00e9 Campos Barreto. Os corpos foram expostos como trof\u00e9us e levados pelo ex\u00e9rcito num helic\u00f3ptero. A repress\u00e3o acabou, seus personagens esquecidos. Mas Carlos Lamarca e Zequinha Barreto, morto aos 26 anos, jamais ser\u00e3o esquecidos, como verdadeiros her\u00f3is da luta pelo socialismo e pela liberdade no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Nasce o Instituto Socialismo e Democracia Jos\u00e9 Campos Barreto<\/h2>\n<p>O Instituto Jos\u00e9 Campos Barreto (Zequinha Barreto) \u00e9 o resultado das aspira\u00e7\u00f5es de ativistas dos movimentos populares, sindicatos (particularmente o Sindicato dos Qu\u00edmicos de Osasco e o Sindicato dos Banc\u00e1rios \u2013 Sub-Sede Osasco), estudantes, militantes de esquerda, que se reuniram para criar um espa\u00e7o amplo de debates, estudos, pesquisas e divulga\u00e7\u00e3o dos ideais socialistas e democr\u00e1ticos, visando elevar a consci\u00eancia do povo. Foi fundado em 14 de junho de 2003, e est\u00e1 instalado junto \u00e0 Sub-Sede do Sindicato dos Qu\u00edmicos Unificados de Campinas, Osasco e Vinhedo, no Bairro Km 18, em Osasco-SP.<\/p>\n<p>O Instituto \u00e9 Organizado atrav\u00e9s de 13 membros de uma Coordena\u00e7\u00e3o, composta por militantes com tradi\u00e7\u00e3o nos movimentos sociais, apoiados pelo Conselho Deliberativo, uma esp\u00e9cie de \u2018Assembl\u00e9ia\u2019 permanente, da qual participam dezenas de militantes.<\/p>\n<p>O Instituto Zequinha Barreto tem dedica\u00e7\u00e3o especial \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e hist\u00f3ria das lutas populares e socialistas da regi\u00e3o e do Pa\u00eds, especialmente a mem\u00f3ria do militante revolucion\u00e1rio Jos\u00e9 Campos Barreto, al\u00e9m de toda uma gera\u00e7\u00e3o de lutadores sociais que ajudaram a derrubar a ditadura e construir os principais instrumentos de luta dos trabalhadores.<\/p>\n<p>O Instituto \u00e9 tamb\u00e9m um espa\u00e7o dedicado \u00e0 forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, no sentido de preparar os trabalhadores e estudantes com embasamento te\u00f3rico para a atua\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica em in\u00fameras fontes de lutas e movimentos.<br \/>\nComo um Instituto Socialista, ele \u00e9 aberto ao debate contempor\u00e2neo de id\u00e9ias, \u00e0 discuss\u00e3o de temas prementes e centrais da conjuntura nacional e internacional. Sua atua\u00e7\u00e3o, mesmo tendo como refer\u00eancia organizativa a regi\u00e3o (Oeste da Grande S\u00e3o Paulo), \u00e9 irrestrita, no sentido de que a defesa do socialismo \u00e9 antes de tudo, uma luta internacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>*M\u00e1rcio Am\u00eandola de Oliveira \u2013 Jornalista e Historiador<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Campos Barreto, Zequinha, nasceu em Brotas de Maca\u00fabas, Bahia, em 02 de outubro de 1946, e em 2020 faria 74 anos. Seus pais foram Jos\u00e9 de Ara\u00fajo Barreto, um agricultor e comerciante pr\u00f3spero de Brotas, e Adelaide Campos Barreto, dom\u00e9stica. 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